

Cadeiras estão sendo usadas como leitos e homens e mulheres dividem a mesma sala de internação no Hospital Municipal de Urgências (HMU), no Bom Clima (Região Centro). A situação foi denunciada por um funcionário da unidade e constatada, na manhã do dia 31 de maio, pela Folha Metropolitana.
A reportagem ouviu quatro pessoas que pediram para que seus nomes não fossem publicados, temendo que a situação difícil na qual já estão fique ainda pior por conta de eventuais represálias.
Uma consultora de 48 anos foi diagnosticada com infecção urinária, que teria sido transmitida para seu sangue. Por isso, foi internada no HMU. “Quando eu entrei e vi onde ficaria internada, deu vontade de ir embora”.
Ela chegou à unidade de saúde na noite de sábado, 28. Até o dia seguinte, passou a noite sobre uma cadeira de plástico. “Não consegui dormir por nem um segundo”. Depois disso, conseguiu “uma vaga” sobre três cadeiras, forradas com mantas por ela mesma. “Eu que adaptei as cadeiras para poder deitar, mas mesmo assim o corpo fica todo dolorido”.
Outro inconveniente relatado pela paciente é o fato de homens e mulheres dividirem o mesmo espaço de internação. “Às vezes, a mulher precisa fazer xixi (sem poder sair do leito) e tem homem por perto. Não há nenhuma privacidade, é muito complicado, é difícil, sinceramente”, lamentou.
A área onde a FM esteve deveria ser uma sala de espera, mas, segundo apurado, é usada como quarto de internação desde a desinfecção do HMU, em julho do ano passado, feita por causa da existência no local de uma bactéria super resistente. Quatro pessoas morreram na ocasião.
Mais de 48 horas em cima de um assento
Uma auxiliar de limpeza de 33 anos afirmou estar com infecção no rim. Foi internada no domingo, 29, e, desde então, permanecia sobre uma cadeira de plástico, até a manhã do dia 31.
Alegaram à mulher não haver maca para ela se deitar. “Quando cheguei no domingo (às 10h), haviam muitas idosas na mesma situação (internadas em cadeiras)”. Por conta do “leito” em que a mulher estava suas pernas incharam e ela convivia com dores nas costas, por estar “impedida” de deitar. Até o fim da entrevista, não havia previsão de alta para a mulher.
Meia hora para atendimento de urgência
Uma auxiliar de escritório de 19 anos acompanhava, no dia 31, o pai, que bateu a cabeça na segunda-feira, 30. O homem chegou por volta do meio-dia com a cabeça sangrando e, mesmo o caso sendo de urgência, demoraram 30 minutos para que ele fosse atendido – informou a filha.
Ela disse que foi necessário “armar um barraco” para garantir ao menos três cadeiras que, enfileiradas e forradas com uma manta fina, eram a maca do pai. “Este hospital não disponibilizou nada para a gente. Os médicos não avaliaram meu pai até agora (10h do dia 31). Enquanto isso, ficamos aqui ‘plantados’ aguardando uma avaliação”.
Solução pode ser transferência, aponta especialista em Saúde
Advogada Ana Paula Carvalho, especializada na área de saúde, disse que em casos como o do HMU o “mais adequado” é garantir a transferências dos pacientes para unidades que ofereçam leitos. “Já que o hospital (de Guarulhos) não dá conta, um médico precisa fazer um relatório atestando isso para que uma (eventual) transferência ocorra”.
Caso seja constatado qualquer tipo de dano, moral ou físico, o paciente também pode mover uma ação contra os responsáveis pela unidade hospitalar.
Ela destacou a Constituição que, em seu artigo 196, diz que “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Finalizou afirmando que, “no caso do HMU, isso não está acontecendo”.
Prefeitura nega denúncias e diz que vai ampliar os leitos
A Secretaria Municipal de Saúde afirmou “não ser verdade” que pessoas permaneçam dias em cadeiras, como foi relatado por pacientes e confirmado pela reportagem da Folha Metropolitana.
A pasta acrescentou que o HMU conta com 80 leitos, atendendo aproximadamente 20 mil pessoas por mês. “Por fim, a secretaria esclarece ainda que já está em andamento o processo de licitação para a contratação de obra de ampliação do número de leitos no HMU”, afirma nota.
Conselheiro afirma que saída é “demolir” prédio
O conselheiro municipal de saúde Pedro Gomes afirmou que a solução para o HMU é a construção de um novo prédio para o hospital. “A única solução para melhorar o atual quadro é fazer um novo HMU. Demole o que existe, pois este não tem mais como ampliar”.
Fonte: Folha Metropolitana – 06.06.2016
folhametro.com.br/ultimas/hmu-interna-os-pacientes-em-cadeiras/
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